Rodada de negociações termina com bancos se comprometendo a apresentar proposta geral no dia 13

A sexta rodada de negociações da Campanha Nacional Unificada, realizada nesta terça-feira (4), foi marcada por críticas da Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) ao conjunto das cláusulas econômicas, da minuta de reivindicações da categoria bancária.

Nilton Esperança, Presidente da Federação dos Trabalhadores do Ramo Financeiro dos Estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Fetraf RJ/ES), Carlos Pereira (Carlão), Coordenador Geral do Sindicato dos Bancários do Espírito Santo, e Joanderson Gomes, Presidente do Sindicato dos Bancários de Itaperuna e Região, representaram a entidade na reunião.

A Fenaban também sugeriu que a PLR não deveria ser reajustada, uma vez que os bancos possuem programas próprios de remuneração variável, apontando que o lucro do setor bancário está sofrendo com a escalada de concorrência com outros atores no sistema financeiro nacional.

O Comando Nacional das Bancárias e dos Bancários rebateu, deixando claro que a PLR não se relaciona com os programas próprios e que não abre mão da valorização da PLR. “Os programas próprios não podem substituir a PLR. Cada banco define seu programa próprio, o que tem a ver, em alguns casos, com a venda de produtos. São importantes, mas são complementares, e nem podem substituir ou serem usados para reduzir o valor da PLR”, destacou a coordenadora do Comando, Juvandia Moreira.

O movimento sindica registrou que, ainda que Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) preveja a possibilidade de distribuir até 15% do lucro líquido, os grandes bancos privados distribuem, em média, um percentual bem menor: 5,9%.

Quanto às críticas da Fenaban ao conjunto das cláusulas econômicas, o Comando rebateu que a minuta reflete as reivindicações de diversos segmentos do setor bancário. “Inclusive, a minuta é uma defesa contra o movimento, iniciado em meados da década da 1990, por vários setores, de redução da remuneração fixa (direta ou indireta), que vem sendo substituída pela remuneração variável que, no geral, é baseado em metas e pressão”, completou Juvandia Moreira, que também é presidenta da Contraf-CUT.

Após um pedido de pausa para almoço, a Fenaban retornou dizendo que irá apresentar, na próxima rodada de negociações, dia 13 de agosto, uma proposta geral para todas as reivindicações, incluindo reajustes na remuneração, igualdade de oportunidades, saúde e condições de trabalho.

A massa salarial caiu, mas os lucros dos bancos aumentaram

Entre os principais pontos de reivindicação da categoria nas cláusulas econômicas estão o aumento real (reposição da inflação mais 5% de reajustes) nos salários e demais verbas; valorização da PLR; aumento maior para va/vr; adoção do salário mínimo necessário do Dieese (R$ 7.999,44) como piso da categoria; e criação de um piso para os profissionais da TI.

“A expectativa da categoria é grande por aumento real, valorização da PLR, aumento maior nos tickets refeição e alimentação e no piso da categoria. Os bancários também exigem o fim das demissões em massa e do fechamento de agências”, observou Juvandia. “A categoria vem sofrendo uma contínua perda de massa salarial, agravada pela redução dos postos de trabalho. Desde 2014, a massa salarial real dos bancários acumula queda de 17%, sendo que, apenas no último ano, a retração foi de 2%, evidenciando o impacto das demissões e da redução do emprego sobre a renda dos trabalhadores”, reforçou a dirigente.

O movimento sindical destacou ainda que, em 2025, as receitas de tarifas dos cinco maiores bancos cobriram 123% das despesas com o pessoal, incluindo PLR. Ou seja, com o que cobraram dos clientes, os bancos pagaram no ano passado toda a despesa de pessoal, inclusive PLR, com sobra equivalente a 23%. Quando retirada a PLR da conta, essa cobertura sobe para 142%.

Dados sobre a realidade financeira dos bancos:

– Em 2025, juntos, os cinco maiores bancos lucraram R$ 124 bilhões.
– Considerando todo o setor, o lucro líquido registrado foi de R$ 171 bilhões.
– O patrimônio líquido do setor bancário atingiu, no ano passado, o montante de R$ 1,2 trilhão.

Rentabilidade dos bancos e seus concorrentes, em 2025:

– Quase 60% de todo o patrimônio de um grupo de 164 bancos analisados estavam concentrados em instituições, que obtiveram rentabilidade entre 10% e 30% ao ano – considerados resultados excepcionais para a conjuntura.
– Embora 17% dos bancos (cerca de 28 instituições) tenham registrado resultado negativo (prejuízo), eles representam apenas 1% do dinheiro total do setor.

Já, entre as 181 instituições de pagamentos (IPs), concorrentes dos bancos, o cenário foi bem diferente, em 2025:

– A maior parte (45%) apresentou até 10% de rentabilidade.
– 25% entregou rentabilidade acima de 30%.
– O Nubank, sozinho, representa 21% do patrimônio líquido desse grupo de 181 instituições.
– Ainda em 2025, 39% das instituições de pagamento (70 empresas) fecharam no vermelho, mostrando, portanto, que as IPs ainda não ameaçam os bancos, como a Fenaban aponta. 

Propostas para mulheres no setor

A reunião desta terça-feira (4) contou também com a participação de uma especialista convidada pela Fenaban. A consultora Carolina Cavenaghi, fundadora da Fin4She, iniciativa voltada à qualificação e ao fortalecimento da presença feminina no mercado financeiro, abordou propostas de desenvolvimento e recolocação profissional para mulheres no setor bancário.

Após a apresentação, o Comando Nacional reforçou que a participação das mulheres nos bancos está em queda e que elas seguem sub-representadas nos cargos de liderança.

“A proposta de um curso de formação, sobretudo quando acompanhada de construção e formação de uma rede de apoio entre as mulheres, é importante, mas isso não é o suficiente para mudanças estruturais. Nosso desejo é que a Fenaban, também, apresente um plano de ação que corresponda às nossas reivindicações por mais contratação, igualdade de oportunidade, ascensão na carreira e salários iguais entre homens e mulheres”, completou a também coordenadora do Comando Nacional, Neiva Ribeiro.

A seguir os principais dados de gênero nos bancos:

– Queda de participação: de 49,1% para menos de 47%, entre 2015 e 2025.
– Atualmente, em média, as mulheres bancárias ganham 18,4% a menos do que os homens.
– Se nada for feito e considerando o ritmo histórico e recente (entre 2016 e 2025) de evolução, levará 40 anos para as mulheres e homens ganharem igual o setor bancário.
– Em 2025, as mulheres ocupavam 47,7% dos cargos de liderança.
– Entretanto, a remuneração delas nesses postos de liderança é 26% inferior à dos homens em funções similares.
– Considerando o recorte racial, as pessoas negras (homens e mulheres) ocupavam 25,2% dos cargos de liderança, em 2025.
– As mulheres negras (pretas e pardas) ocupavam 9,7% dos cargos de liderança.

Fonte: Contraf-CUT